ANA EM VENEZA: CARNAVAL, EXÍLIO E (PÓS)MODERNIDADE

 

Antônio R. Esteves – UNESP-Assis

 

 

Vários setores da crítica literária tem sido unânimes em apontar o surgimento, nas última décadas, de uma série de romances cuja característica marcante comum é a forma especial como se trabalha criticamente a história. Esse fenômeno, bastante comum nos países latino-americanos de língua espanhola a partir dos anos 60, pode ser constatado também no Brasil, embora com uma intensidade menor.

O professor Seymour Menton (1993), em seu livro La nueva novela histórica en América latina, 1979-1992, faz um breve histórico dessa nova modalidade de romance histórico, apontando seis marcas fundamentais que definiriam o subgênero e o diferenciam do romance histórico tradicional, surgido no século XIX a partir dos romances de Sir Walter Scott, e já exaustivamente estudado no clássico ensaio de Lukács (1977). São elas: a subordinação da representação mimética a três conceitos filosóficos bastante comuns na ficção de Jorge Luís Borges (a impossibilidade de se conhecer a verdade histórica ou a realidade, o caráter cíclico da história e, paradoxalmente, sua imprevisibilidade); a distorção consciente da história, mediante omissões, anacronismos e exageros; a ficcionalização de personagens históricos bem conhecidos, que aparecem como protagonistas, ao contrário do modelo scottiano; a presença da metaficção ou comentários do narrador sobre o processo de criação; grande uso da intertextualidade em suas mais variadas formas; e a utilização dos conceitos bakhinianos de dialogia, heteroglossia, paródia e caranavalização.

O grau de afastamento da nova modalidade de romance histórico com relação ao romance histórico tradicional é bastante variável e o próprio Menton adverte que não se faz necessário que todas as características acima citadas estejam presentes em um determinado romance para poder-se classificá-lo como Novo Romance Histórico Latino-americano. Apesar das críticas que se possam fazer à definição do professor Menton, há que se reconhecer que é bastante prática, tratando-se, além disso de uma das definições mais abrangentes para essa nova modalidade de romance. De acordo com pensadores de outras linhas teóricas, entre os quais Linda Hutcheon[1], tais romances também poderiam ser enquadrados na  chamada poética da Pós-modernidade.

Partindo do princípio de que não há uma só verdade, mas várias verdades, segundo o ponto de vista adotado, e rejeitando qualquer pretensão de uma representação autêntica[2], uma marca desse novo tipo de romance, do qual Ana em Veneza pode ser considerado um típico exemplo, é fazer uma releitura crítica da história, distorcendo-a ou negando-a conscientemente, mediante anacronismos, exageros ou omissões. Apesar de armar-se minuciosamente de textos históricos, o romancista trabalha-os de forma paródica ou carnavalizada, aproximando dialogicamente vários pontos de vista diferentes deixando para o leitor a palavra final. O resultado é o surgimento de textos híbridos que contestam ou negam os cânones tradicionais, numa visão descolonizante, onde tenta-se inverter o ângulo de observação. Trata-se da Europa descoberta pelos americanos.

Nunca me passou pela cabeça escrever um romance histórico, declarou com veemência João Silvério Trevisan, em uma entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, pouco depois do lançamento de seu último romance, Ana em Veneza, que, publicado em 1994, foi merecedor de importantes prêmios, estando já traduzido ao alemão e ao espanhol. "Não gosto de romances históricos e não considero que Ana em Veneza seja um romance histórico"[3], afirma o escritor. Entretanto, apesar dessas afirmações do escritor, a maior parte dos personagens que aparecem ao longo do romance, saíram diretamente das páginas da história.

Julia Silva Bruhns, sua mucama Ana e Alberto Nepomuceno são os protagonistas do romance. Julia é a mãe brasileira do escritor alemão Thomas Mann; Ana é uma escrava africana que a acompanhou à Europa, quando a família Bruhns deixou o Brasil, em 1858, sendo Julia ainda uma menina. O cearense Alberto Nepomuceno, sobrinho do escritor Manuel de Oliveira Paiva, é um jovem músico de província que deixa sua terra natal para fixar-se no Rio de Janeiro. Conseguindo uma bolsa de estudos, parte para a Europa, onde permanece por vários anos, entrando em contato com a música italiana e alemã. Seu personagem é o fio condutor da narrativa e introduz uma série de discussões sobre a modernidade e a identidade. Os três personagens, reais todos, cruzam-se, na ficção, em Veneza, a cidade da fantasia, aonde se dirigiram em busca de uma possível identidade perdida.

O tema central do romance é o exílio: seja o interior, daqueles que tentam encontrar um sentido para a existência; seja o exterior, daqueles que, ausentes da pátria, tentam reencontrá-la fora dela. Associados ao exílio e à busca da identidade, surgem vários outros temas que sustentam a narrativa: a tentativa de entender e aceitar a morte como componente da vida humana; a procura de um sentido para a vida; as relações entre o centro e a periferia (Europa, América e África); a difícil vida do intelectual latino-americano; entre outros. A busca da identidade, seja nacional, cultural ou individual, e a tentativa de captar o sentido da modernidade e/ou pós-modernidade e definir o que seja a Arte neste conturbado fim de século/milênio são questões amplamente discutidas ao longo do romance. Tais questões, discutidas pelos personagens em fins do século passado, são profundamente atuais e polêmicas. Dessa temática atemporal e a-histórica, talvez surja a negação categórica do escritor em aceitar Ana em Veneza como romance histórico.

No entanto, a narrativa está permeada por minuciosa reconstituição histórica, tão cheia de detalhes que beira, muitas vezes, um barroquismo exagerado, transformando a leitura numa empreitada lenta e difícil. Pode parecer, como muito bem apontou Luiz Zanin Oricchio[4], em sua resenha do livro, que Trevisan nade, uma vez mais, contra a correnteza. Numa época em se escrevem texto curtos e bem digeríveis, ele ousa a apresentar ao público um grosso volume. Quando a moda é a frase curta e o período telegráfico, ele se entrega a períodos longos e pesados, com uma sintaxe de difícil apreensão. Quando a tendência é a internacionalização a qualquer preço, "Trevisan se volta sobre o nosso próprio umbigo nacional e tenta discutir questões como a identidade brasileira, provincianismo e o esgotamento da modernidade".

A questão da identidade, porém, tem sido um tema recorrente nas literaturas hispano-americanas, tendo aparecido, nos últimos anos associada ao Novo Romance Histórico Latino-americano acima referido. A busca da identidade nesses casos passa pela releitura da história tradicional, agora parodiada ou até mesmo carnavalizada, numa verdadeira sinfonia, onde aparecem concomitantemente várias vozes. São vozes tidas, durante muito tempo, como dissonantes, que agora se juntam para dar uma visão mais completa da complexa realidade latino-americana.

Ana em Veneza está estruturado como uma imensa sinfonia em cinco movimentos - um prelúdio e mais quatro partes (Larghetto lamentoso, Andante apassionato; Adagietto con variazioni e Alegro barbaro), mantendo um sólido diálogo intertextual em vários níveis, seja com a literatura, seja com a música, seja com outras artes. O próprio conceito de obra de arte aparece discutido no romance. Diálogos não apenas entre as várias artes, mas também entre as várias culturas, européias, americanas e africanas. Diálogos entre as artes e culturas já mestiças entre si. Tais diálogos surgem ao longo do romance na forma clássica de discussão ou debate entre os personagens mas aparecem, principalmente, de modo bastante carnavalizado, pelas diversas formas de intertextualidade, implícitas ou explícitas, variando do simples pastiche a diferentes graus de paródia.

Praticamente todas as características elencadas por Menton como marcas do Novo Romance Histórico Latino-americano podem ser encontradas no romance de Trevisan. O conceito de história, em Ana em Veneza, está bem mais próximo do modelo cíclico borgeano que do tempo progressivo da civilização européia, contestado na obra. O tempo circular mítico trazem-no Ana e sua primeira pátria, a África. Ela tem gravadas em sua pele marcas primitivas tribais. Quando abandona o Brasil, na primeira parte do romance, essa Ana Wurá, "que só regressa para poder partir de novo", enquanto os negros entoam antigos cânticos rituais, joga ao mar um buquê de rosas brancas, que as ondas do mar, em seu movimento circular, levam. Quase no final do romance, já em Veneza, ela recebe de Nepomuceno um maço de rosas brancas, bem abertas. Com as rosas nos braços caminham por Veneza, ela e o músico, depois de terem sido purificados sob uma forte chuva. Ela já havia começado a falar em sua antiga língua africana, há muito esquecida, sinal da perda da razão, sendo invadida, aos poucos, por um mundo fantástico. Morre no dia seguinte, na praia, olhando o infinito mar, tendo ainda em seus braços as rosas brancas. Frente à realidade do tempo circular, a presença constante da morte no romance de Trevisan deixa de ter o peso de final definitivo que tem na cultura ocidental para adquirir o sentido de mudança para outra realidade. Segue girando a roda e vida e morte embaralham-se adquirindo novos sentidos de acordo com o ponto de vista.

No final da última parte, dentro do ritmo musical do romance, ocorre outra ruptura com o tempo linear e progressivo próprio da cultura ocidental. O relógio salta de 6 de julho de 1891, quando Nepomuceno, no dia em que completa vinte e sete anos de idade, está na Estação Anhlater de Berlim, esperando o trem para Viena, para 06 de julho de 1991, estando Nepomuceno no Aeroporto Tegel de Berlim, esperando um avião para ir participar da noite brasileira do Festival de Jazz de Montreaux. Já no avião, desfilam carnavalescamente diante de seus olhos uma galeria de personagens da vida cultural brasileira do século XX, principalmente cantores e compositores da MPB. Segue girando, sob os ponteiros do relógio, a roda do tempo. O que seria apenas a manifestação de um anacronismo, a quebra brusca do tempo linear, pode ser vista como uma manifestação desse tempo não-linear, cíclico e mítico, onde passado, presente e futuro são mera questão de ponto de vista. Todas as épocas são, enfim, o começo e o fim de uma época.

Merece destaque a longa teia de intertextualidades tecidas ao longo da narrativa. A mais evidente delas, já a partir do título, faz-se com a obra do escritor alemão Thomas Mann. Ana em Veneza traz ecos de Morte em Veneza. Ana, a ex-mucama de Julia Mann, mãe de Thomas, vem morrer em Veneza, depois de perambular por três continentes. O diálogo ocorre não apenas com a novela de Thomas Mann, mas também com o clássico filme de Luchino Visconti, nela baseado. No romance de Trevisan, Thomas aparece menino, identificado não apenas com o Tadzio, da novela e do filme, mas também com o protagonista do Tonio Kroeger, que está apaixonado por um colega de classe a quem escreve uma série de cartas. As infindáveis reuniões familiares do romance parecem saídas das páginas de Os Buddenbrook e as profundas discussões filosóficas sobre o sentido da vida e sobre a essência da Arte saíram diretamente de A montanha mágica., além dos já referidos Morte em Veneza e Tonio Kroeger. O diálogo, no entanto, é explícito. Já no prelúdio, o personagem Nepomuceno confessa: "Acho que fui me tornar um personagem de Thomas Mann. (...) Um personagem de Thomas Mann, quem diria... Desses habitantes de um mundo que acabou, desencantados com tudo, até com a morte, da qual nada esperam."[5]. Além da obra de Thomas Mann, surgem outros elementos da cultura alemã, como a música de Wagner, admirada por Nepomuceno, ou a literatura de Kafka, que aparece na voz do personagem Gustav, por exemplo.

No entanto, apesar da forte presença germânica, o romance também dialoga com a literatura hispano-americana, compartindo outros elementos além da busca da identidade cultural. Pode-se constatar um forte diálogo entre Ana em Veneza e Concierto barroco, do cubano Alejo Carpentier, o fundador, segundo Menton, do Novo Romance Histórico Latino-americano. Vários são os pontos de contato entre as duas obras. Ambas tentam imitar a estrutura de peças musicais, o concerto, no caso de Carpentier e a sinfonia, no caso de Trevisan. A música e a discussão de temas musicais ocupam boa parte de suas páginas, sendo em ambos os casos metáforas de uma discussão maior: a obra de arte. Em ambas os protagonistas saem da América e cruzam o oceano em busca de sua identidade. Trata-se de uma viagem oposta à dos colonizadores e imigrantes que povoaram o continente americano e forneceram as matrizes principais da cultura latino-americana. Em ambos os casos, o cenário escolhido para as discussões sobre a identidade é a barroquizante Veneza, meio terra, meio mar, meio Oriente, meio Ocidente, pátria-mãe do carnaval, local onde ocorre boa parte da ação. Essa cidade é símbolo do que é híbrido e, ao mesmo tempo, mutável na cultura européia. Nos dois romances para chegar-se à cultura americana, parte-se da européia e passa-se pela mediação da cultura africana: Filomeno, no caso de Concierto barroco e Ana, no caso de Ana em Veneza. A carnavalização tem um papel importante nos dois romances, seja a través da imagem de Veneza e seu Carnaval; seja através das referências aos dois carnavais mais importantes da América latina, o do Brasil e o de Cuba; seja através dos bailes de máscaras e dos próprios desfiles carnavalescos. Finalmente, os dois têm um capítulo final em que o tempo cronológico rompe-se, sobrepondo tempos históricos diferentes, numa clara celebração do tempo mítico circular. Vivaldi, Louis Armstrong e Purcell encontram-se em Veneza, no final do Concierto barroco. Ana em Veneza termina com Nepomuceno, em 1991, assistindo a Vicente Celestino que canta o "Desafinado", ao lado de Marilyn Monroe.

Apesar desses importantes diálogos com elementos de outras culturas, europeus e hispano-americanos, o núcleo do romance é a cultura brasileira, que é discutida em sua essência. Aparecem referidos no romance, direta ou indiretamente, Gonçalves Dias, José de Alencar, Souzândrade, Olavo Bilac, Mário de Andrade, Guimarães Rosa, e muitos outros. Não apenas na literatura: Tobias Barreto, Gilberto Freire, Carlos Gomes, Francisco Braga, Paulo Florence, Vila-Lobos, Glauber Rocha e no desfile carnavalizado do último capítulo, praticamente toda a MPB, de Chiquinha Gonzaga a Sandra de Sá.

O último capítulo, como já se disse, é uma manifestação explícita de carnavalização. Num imenso monólogo, Alberto Nepomuceno vê desfilar diante de si, enquanto voa de Berlim para Zurich, de onde vai ao Festival de Jazz de Montreaux assistir à noite brasileira, um imenso cordão caranavalesco. O desfile, que lembra o filme Orgia, feito por Trevisan em 1970 e que ficou inédito até bem pouco tempo, conta com a presença dos personagens mais importantes da cultura brasileira do século XX. De Mário de Andrade a Caetano Veloso, de Vicente Celestino a João Gilberto, de Getúlio Vargas a Glauber Rocha. Personagens reais e fictícios: Carmen Miranda e Antônio das Mortes, Conselheiro e Macunaíma. O texto incorpora, quase num imenso pastiche, letras das canções mais conhecidas da MPB, versos de poetas de vários cantos do planeta, discussões das múltiplas tendências da arte brasileira contemporânea. Não faltam sequer referências à AIDS. Por trás da questão central do sentido da arte (pós)moderna paira soberano o fantasma da morte.

A morte ocupa um papel de destaque no romance, como um fio condutor na história dos três protagonistas que se encontram em Veneza por ocasião da morte de Ana. A imagem da morte de sua mãe, em sua longínqua infância tropical, dando início a seu exílio, marcará para sempre Julia Mann. Alberto Nepomuceno, um cardíaco, carrega consigo, em seu exílio europeu, o fantasma da morte. Ana também é marcada pela morte, não superando jamais a morte de seu amado Gustav. Ela é o único dos três protagonistas que morre no romance. Sua morte ocupa praticamente todo o capítulo 12 da terceira parte, que mistura minuciosa e expressionista descrição de seus últimos instantes com o turbilhão de imagens que recompõe praticamente toda sua vida, desde seu nascimento na África, num tempo distante, mítico, até o instante em que ela cai e o "sangue, como lava ardente, sai em jorros pelo nariz e pela boca"[6]. Como o tempo é circular, como já se disse, a terrível presença da morte lê-se, simbolicamente, como um tremendo sim à vida, com o qual termina o romance:

 

Pois ainda que os espasmos do amor e da morte sejam sim semelhantes os espasmos do amor superam os da morte, isso eu sei, e ainda que tenha compreendido todos os mistérios se não tiver amor nada terei compreendido e portanto eu sei que é um SIM.[7]

 

A viagem às origens é um tema recorrente na literatura latino-americana. Os três protagonistas só terão consciência de sua identidade a partir do momento em que deixam a terra em que nasceram e cruzam o oceano, em direção à Europa. Julia cruza o oceano para encontrar uma pátria nova, a terra de seu pai, e isso permite identificá-la como brasileira. Ela, entretanto, perde sua identidade. Será reeducada e terá que adotar a Alemanha como sua terra. Com Ana ocorre algo semelhante: ao sair da África, a antiga escrava perde sua pátria original e jamais há de recuperar-se desse trauma. Ao adotar o Brasil a situação resolve-se provisoriamente mas ao ser levada para a Europa o desarraigo se estabelece definitivamente. Morre em Veneza desejando a pátria mítica de sua infância. Pouco antes de sua morte, ao encontrar-se com Nepomuceno, há um momento epifânico onde tudo parece resolver-se a nível simbólico:

 

Ali, pareceu que o presente fugaz confundia-se com o passado e atraia para si o futuro, de tal modo que o mundo tornou-se um todo, totalmente comtemporâneo, e eles sentiram-se companheiros de viagem.[8]

 

Por esse encontro pode-se notar que Ana inclui Alberto (e também Julia) na resposta que procura. A cultura brasileira forma-se a partir de duas raízes mais evidentes: a européia (Julia) e a africana (Ana). Se Julia e Ana não conseguem encontrar sua identidade, o mesmo não ocorre com Alberto. Depois de vir à Europa estudar música com os grandes mestres italianos e alemães, ele regressa definitivamente ao Brasil defendendo a existência de uma arte brasileira mestiça, resultado da mistura de várias culturas, incluindo também a popular e a erudita. Seu nome será, no final do romance, "Alberto Quem-Sabe-O-Quê Nordestino, sim Alguma-Coisa Nepomuceno Carnaúba ou seria Bebé Qualquer- Alguma-Coisa- das Caatingas ou Talvez Nepo-Sim Talvez Não, (...) Strausvinsky Viloubos Quiçá-de Falla Peut-Debussêtre Maybitren Gustavielleicht Mahler (...)"[9], onde, se por um lado chama atenção a dúvida, por outro lado está presente a simbiose dos vários elementos que contribuem na formação da nova identidade. "A cultura européia nos é útil mas não podemos nos esgotar nela. Somos uma outra coisa. Temos a tarefa de descobrir nossos elementos próprios."[10] A tal conclusão chega o personagem Nepumuceno e também o narrador.

A presença do elemento africano tem fundamental importância na conquista da identidade brasileira, conforme já se disse. É o encontro com Ana, em Veneza, que modifica significativamente o destino de Alberto Nepomuceno. Ao ouvir sua história, primeiro a dura vida de escrava no Brasil, depois os sofrimentos de seu exílio na Alemanha e na Europa, onde era exibida como um animal em um circo, de praça em praça, Alberto vai conscientizando-se da importância da cultura negra em seu país. A modernidade da arte de Gustav, o amante de Ana, também depende desse símbolo da cultura africana. Para ele, Ana era a "Vênus negra". Trata-se do reconhecimento ao tributo africano às vanguardas européias do começo do século XX. No entanto, Ana morre. Mas Alberto segue trabalhando e compõe a "Dança dos negros", além de uma versão para orquestra com o título de "Batuque", na qual introduz, para escândalo dos puristas, um instrumento africano, o reco-reco. Sua arte, então, faz-se mulata, mestiça. Diz ele: "Poucas vezes me senti tão seguramente brasileiro como na noite dessa apresentação[11]. Ele mesmo esclarece que a inspiração para sua Série Brasileira veio do barroco de Bach e da lembrança de Ana Brasileira, a quem faz uma homenagem em uma das peças.

A busca da identidade é o centro da preocupação do escritor João Silvério Trevisan. Num artigo recente ele escrevia "Não sabemos quem somos. Talvez um problema sem solução. Nossa aparente tragédia é que temos raízes muito frágeis para criar identidade. E sem identidade não há esperança nem futuro[12]. Da mesma forma que, ao chegar ao final das quase seiscentas páginas de angústia, solidão e desespero de Ana em Veneza encontramos um SIM à vida, uma esperança explícita e muitas certezas implícitas, Trevisan também acena, no artigo em questão, com um SIM: "Talvez a saída para nosso futuro, como nação pobre e contraditória, esteja exatamente aí: em nossa voracidade poética"[13]. E conclui com os mesmos versos de Caetano Veloso que também aparecem no imenso pastiche que constitui o último capítulo de Ana em Veneza: "...vamo comer feijão e se não tiver / vamo comer faisão e se não tiver / vamo comer poesia".[14]

 

 

Referências Bibliográficas:

 

CASTELLO, José. "Trevisan tira a identidade brasileira do exílio". Caderno 2. O Estado de São Paulo, 25/06/1995.

HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-Modernismo. Trad. Ricardo Cruz, Rio de Janeiro:Imago,1991.

MENTON, Seymour. La nueva novela histórica de América latina, 1979-1992. México: FCE, 1993.

ORICHIO, Luiz Zanin. "Trevisan discute a questão da identidade cultural". Caderno 2.- O Estado de São Paulo, 05/02/95, p. D 12.

NAVARRO, Justo. “Un héroe del poder espiritual”. Babelia – El País, Madrid, 15/01/2000. p.7.

RINCÓN, Carlos. La simultaneidad de lo simultáneo. Postmodernidad, globalización y culturas en América Latina. 2.ed., Bogotá, Eun, 1995.

TREVISAN, João Silvério. Ana em Veneza. São Paulo, Best Seller, 1994.

______. "Brasil: quem somos, para onde vamos? (500 anos depois, a mesma pergunta sem resposta)". Trevisan. 145:39-41, 2000.

 



[1] HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-Modernismo. Trad. Ricardo Cruz, Rio de Janeiro:Imago,1991.

[2] Idem, p. 147.

[3] CASTELLO, José. "Trevisan tira a identidade brasileira do exílio". Caderno 2. O Estado de São Paulo, 25/06/1995.

 

[4] ORICHIO, Luiz Zanin. "Trevisan discute a questão da identidade cultural". Caderno 2.- O Estado de São Paulo, 05/02/95, p. D 12.

[5] TREVISAN, João Silvério. Ana em Veneza. São Paulo, Best Seller, 1994. p. 40.

 

[6] Idem, p. 500.

[7] Idem, p. 579.

[8] Idem, p. 495.

[9] Idem, p. 579.

[10] Idem, p. 516.

[11] Idem, p. 518.

[12]TREVISAN, João Silvério. "Brasil: quem somos, para onde vamos? (500 anos depois, a mesma pergunta sem resposta)". Trevisan. 145:39-41, 2000. p. 41.

[13] Idem, ibidem.

[14] Idem, ibidem.